Eugène Atget


registrar, fotografar o que fazemos e os lugares onde vamos é comum, quase todo mundo faz, principalmente quando são turistas. A fotografia mudou a maneira como as pessoas viam o mundo, mudou a maneira de viajar, se tornando ela mesma um meio de transporte, mas isso é outro assunto. Mas registrar a própria cidade é mais raro, mas entre os fotógrafos, uma constante.

Claro que os fotógrafos que moram em Nova Iorque ou em Buenos Aires tem mais sorte e mais coisas pra fotografar do que os que moram em Nova Horizontina ou qualquer cidade pequena do interior, mas esses, principalmente os atuais, foram influenciados pelos antigos e fazem fotos das cidades sem a inocência que ainda existia no começo do século passado. Fazem, talvez, sempre por algum motivo ou intenção já pré definida, sabendo que antes deles muitos já fizeram isso antes. Afinal, os antigos roubaram todas nossas boas idéias, como li uma vez e achei engraçado.

A cidade mais fotografada no mundo acho que é mesmo Nova Iorque, mas talvez Paris sempre tenha sido uma fonte inesgotável de imagens, principalmente para um cara chamado Eugène Atget, que se mudou pra lá em 1890.

Conheci as fotos de Atget antes do nome, na época que eu só gostava de ver fotos, e não ler sobre fotografia, nem me importar com quem eram os caras que fizeram antes de mim o que faço hoje, muito provavelmente por causa da contribuição de todos eles, mas enfim, eu não dava bola pra história, quando era um adolescente, mas já gostava de uma foto dele, em particular. Muito tempo depois descobri que se chamava Versailles, parc, 1901. Eu já tinha feito uma foto bem parecida e nesse dia tive certeza de que precisava conhecer esses caras todos, porque afinal, temos coisas em comuns, nós, fotógrafos e apreciadores da fotografia. Comecei a ver e gostar e tempo depois descobri que não era o único que gostava do cara, pelo contrário.

Atget produziu mais de 10.000 fotografias - ainda usava negativos de vidro, naquela época já uma tecnologia em desuso - de fachadas, parques, ruas e trabalhadores em atividades cotidianas, e retrata uma Paris parte lenda, parte sonho, mas profundamente real. Trabalhou e ganhou a vida como fotógrafo mas a maioria é material autoral, por iniciativa própria. Queria preservar a cidade que estava sendo modificada pelo crescimento, talvez por ser um leitor voraz da literatura francesa do século XIX, e fotografou áreas destinadas a demolição e profissões fadadas ao desaparecimento, e na série sobre parques e árvores do sul da cidade, sugere uma preocupação em preservar ambientes naturais do visível crescimento industrial já visto na parte norte de Paris.

No livro que conheço, ainda não tenho mas um dia vou comprar, chamdo The Work of Atget, John Szarkowski e Maria Morris Hambourg deram a melhor crítica que existe de um fotógrafo individual, confirmando a necessidade de suas fotos, do conhecimento e da consolação que oferecem. No volume quatro, Modern Times, Szarkowski fala sobre o reconhecimento e sentimento de dívida que fotógrafos como Berenice Abbott, Walker Evans, Bill Brandt, Ansel Adams e Lee Friedlander tinham por Eugène. Szarkowski admira a intensa e relativamente direta admiração à beleza física do mundo - tanto em formas como na luz que as revelam - e sua relutância em atribuir grandes significados ao que fotografava.

As fotos de Atget são reconhecidas como a suprema expressão da fé instintiva da maioria dos fotógrafos: uma crença na significância de cenas específicas, e o poder/característica da câmera para transcrição precisa. Szarkowski sugeria que tudo que Atget alcançou e conseguiu pode ser atribuído ao fato de que seu objetivo (simplesmente "descrever o caráter autêntico da cultura francesa") eram muito maiores que seu ego e ainda diz que o exemplo de Atget "nos dá esperança de ver novamente artistas não como deuses mas como anjos" não como criadores autônomos mas como criativos celebradores do que nos foi dado, como disse Robert Adams no livro Why People Photograph, tradução livre.

Enfim, Eugène Atget é um dos meus favoritos, talvez até o favorito, depende da lua eu acho. É controverso, mas Szarkowski tem uma frase que acho de define meu sentimento por Atget: "the first demand that we make of a major artist, famous or nameless, is that subsequent artists be moved by his or her work, and take from it." Ainda não tenho o livro na minha biblioteca mas levo comigo na memória.