Eugène Thiébault, Henri Robin and a Specter, 1863
uma das ideias interessantes sobre a história da fotografia é ideia de ingenuidade.
Naivité, ou a ideia de ingenuidade na fotografia em geral, mas principalmente associada ao movimento espiritualista, que se baseava na crença que através de um
medium - ou meio - os espíritos poderiam se comunicar. Quando as duas coisas se unem, foi criado o que genericamente é conhecido como "fotografia de espíritos", ou "
Spirit Photography".
Baseado na esperança, ou na fé, que os espíritos realmente queriam e podiam se comunicar com os que ficaram, aqueles que acreditavam nisso, também acreditavam que as fotos eram realmente fotografias dos seus entes queridos. Claro que pra nós, fotógrafos do século XXI, isso parece impossível de acreditar pois com todo nosso conhecimento em fotografia fica bem claro que eram pessoas vestidas em lençóis, exposições longas onde o cara do lençol ficou somente uma parte do tempo na foto depois saiu para causar esse efeito de translucidez.
Nós entendemos, em um nível técnico, mas precisamos nos levar de volta no tempo e nos colocar no lugar de uma pessoa que vive na metade do século XIX para entender que quem, na época, estava olhando para essas fotos, não estava pensando desse jeito.
Agora, no presente, entendemos a tecnologia como algo oposto ao sobrenatural, percebemos essa história toda de espíritos como oposto à essas caixas mágicas produtoras de imagens que carregamos conosco hoje em dia. Porém, para muitas pessoas do século XIX a tecnologia da época parecia sobrenatural em si mesma.
O escritor de ficção científica Arthur C. Clark, escreveu: "
Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic." (Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica. Tradução livre, minha) E se a gente pensar nisso, parece verdade: até hoje parece mágica que eu aperto a tela do meu telefone e uma folha começa a sair da impressora! Pelo ar! Parece mágica, não?
Aqui é importante lembrar que a fotografia sempre foi tecnologia de ponta. Desde sua criação até hoje, a fotografia utilizada no presente, independente da época, é tecnologia de ponta, é o melhor que a ciência produz. Então quando pensamos na fotografia do século XIX, também precisamos lembrar que o que se usava na época é o que de melhor existia em termos de tecnologia e ciência. O que hoje em dia se chama de processos arcaicos, é na verdade a mais alta tecnologia da época. High tech, assim como hoje as câmeras digitais de cento e poucos mil reais.
No livro
River of Shadows, Rebecca Solnit fala sobre as mudanças da tecnologia na metade do século XIX. "
The changes brought about by technology seems supernatural at first, and photography was associated with death in both the many many images of the dead made during the early years of the medium, and in the way that a photograph seems to cheat death, by making at least appearance permanent." (as mudanças trazidas pela tecnologia pareciam sobrenaturais no princípio, e a fotografia era associada com a morte tanto nas tantas e tantas imagens de falecidos feitas durante os primeiros anos da mídia, e na maneira com que a fotografia parecia trapacear a morte, fazendo pelo menos a aparência permanente. Tradução livre, minha).
Solnit sugere que a ideia da fotografia e a morte estarem associadas é uma parte importante da história da fotografia, e a ideia de que a câmera consegue não só preservar a aparência dos vivos também abriu caminho para a noção de que a fotografia poderia trazer os mortos de volta do além.
Para nós, agora, no nosso tempo, é muito difícil compreender o poder da crença e o poder de sugestão, compreender a ingenuidade, a esperança e a fé que podem transformar uma dupla exposição de um cara num lençol numa miraculosa mensagem da vida depois da morte.
Mas, em contrapartida, a habilidade de conectar inerente à fotografia é fato: todos nós, em algum nível, já recebemos mensagens, através de fotografias, dos que já não estão entre nós: ao vermos uma foto da nossa bisavó com nosso avô ainda garotinho no seu colo, por exemplo, podemos perceber o vínculo, talvez o sentimento entre eles, e de alguma forma nos conectarmos, através desse médium, no caso a mídia fotografia (de
media) e recebermos algum tipo de mensagem, ou algo assim.
É possível, e essa capacidade da fotografia de servir como uma ponte para o passado, para o que já não existe mais, ou para quem já não está mais entre nós, é incrível e constante, atual. Quem nunca pegou uma foto de um ente querido e falecido e sentiu algo, alguma conexão, olhando em seus olhos naquela fotografia, recebeu alguma mensagem, em algum nível?
A fotografia possui essa incrível habilidade mística de conexão, de criar uma ponte entre nós e o passado, entre os vivos e os que só estão vivos nos nossos corações e nas nossas fotografias guardadas em quadros e álbuns de família.
mais informações:
http://www.photographymuseum.com
http://www.environmentalgraffiti.com
http://en.wikipedia.org/wiki/Spirit_photography
http://www.prairieghosts.com/ph_history.html