fotografia e memória

a popularização da fotografia nas primeiras décadas após sua criação proporcionou às massas o que era privilégio da elite, que podia pagar para ter seu retrato pintado.

A vontade de ser retratado e de possuir um retrato de quem gostamos, dos daguerreótipos até hoje, transformou os hábitos e desde então guardamos as fotos como pedaços da nossa existência. Nossas fotos. Fotos da família, da viagem, do jantar especial, do casamento. Registramos visualmente nossa trajetória e nossa história se torna as fotografias que temos, em álbuns, caixas, porta-retratos ou pastas no computador.

Editamos nossa história através das fotografias que fizemos e guardamos. Uma visão romântica e otimista já que fotografamos somente os momentos felizes - ou, no mínimo, especiais. Eu mesmo nunca vi ninguém tirando foto em enterro, velório ou do sanduíche qualquer que comeu sozinho.

Essa história registrada em fotografias é guardada com cuidado e carinho e cada foto é um gatilho que dispara sensações e memórias e por isso as guardamos, e, principalmente, talvez seja por isso que tiramos, fazemos esse tipo de fotografia. Talvez porque de tão enraizado na cultura e no dia-a-dia, sabemos que "o que a Fotografia reproduz ao infinito aconteceu apenas uma vez: a Fotografia mecanicamente repete o que nunca poderia ser repetido existencialmente."*

Trocar fotos digitais por email ou compartilhar na internet, hoje em dia, talvez seja o ápice da repetição, da memória (individual e coletiva), do álbum, e, quem sabe, da repetição da experiência, das sensações existenciais causadas pela visualização das fotografias.

As fotografias que mais gosto - entre as minhas - são aquelas das viagens, das festas, churrascos, jantares, aquelas da beira da praia, dos amigos reunidos, da família, dos amores, daquela morena. E no fim, quando o tempo tiver passado, serão essas as fotografias realmente importantes, essa edição da vida através de imagens, esse registro da trajetória, história e existência, que talvez seja a síntese do que gostaríamos que nossa vida tivesse sido: somente bons momentos.

Essas fotografias que guardamos com tanto carinho e compartilhamos com tanta vontade - e que são importantes somente para nós mesmo e quem está de alguma maneira relacionado - não são fechadas, pelo contrário, são abertas, e seus significados podem mudar com o tempo. De todos os sentimentos, talvez os únicos que vão durar, apesar do tempo, serão a saudade e o amor, nessa relação entre fotografia e memória, e talvez por isso guardamos com tanto carinho, em pastas, caixas, álbuns e porta-retratos, essas fotos especiais, desses momentos que não queremos esquecer.



(*tradução livre de Roland Barthes, em Camera Lucida: "What the Photograph reproduces to infinity has occurred only once: the Photograph mechanically repeats what could never be repeated existentially.)