o mito do talento


o resultado do que fazemos não nasceu com a gente. Foi desenvolvido, incentivado, treinado, estudado, feito e refeito, praticado, e todas as habilidades precisam do trabalho. Sem o trabalho - que consiste em tudo isso, desde pensar até fazer - as coisas não acontecem. Já ouviu aquela frase quanto mais eu treino mais sorte eu tenho? Resume bem. Nada acontece por acaso, as pessoas nascem sem saber nada, tudo é desenvolvido, melhorado.

Michael Jordan ficava treinando sozinho no ginásio todos os dias depois que todos iam embora. Casualmente dizem que Pelé ficava batendo faltas depois dos treinos. Picasso pintou centenas de quadros, uma vez ouvi num documentário que "ele era um vulcão", se trancava no atelier e ficava dias produzindo. Para fazer o livro The Americans - um dos clássicos, com prefácio de Jack Kerouack, o suíço Robert Frank fez mais de dez mil fotos e o livro tem somente umas cem.

Eles não eram ETs que nasceram prontos, que simplesmente faziam aquilo porque nasceram com um dom. Todos nascem iguais, uns treinam mais que os outros, trabalham mais, produzem mais, desenvolvem mais e melhor alguma habilidade, chegam a mais resultados.

O mito do talento é antigo e assim como muitos mitos, acreditado por muitos. Mentira, superstição, preconceito. "Se fosse assim teríamos que dividir o mundo entre os que nasceram e os que não nasceram com habilidades." Essa frase que ouvi do professor durante o intervalo, tomando um café, e sintetiza bem um dos motivos que resolvi entrar no Instituto de Artes e fazer esse curso de Artes Visuais: quebrar paradigmas, acabar com mitos, trabalhar e produzir mais e achar pessoas que compartilhem da opinião que compartilho. Melhor ainda se for um professor. Estou lá não apenas pra descobrir coisas novas mas também pra descobrir se as velhas verdades que eu acredito são de fato verdades - ou opiniões compartilhadas com pessoas que tem mais estudo, capacidade crítica e vivência do que eu.

Michael Kenna é um dos caras que tem aqueles trabalhos sensacionais, extasiantes, fora do comum. Mas não nasceu assim, se for analisar seu trabalho, ele vem fazendo a mesma coisa desde 1974, fotografia preto e branco grande formato. Ano passado produziu muito, assim como em todos os outros anos. Uma habilidade desenvolvida ao longo das décadas produziu um resultado impressionante, magnífico.Uma das fotos que eu mais gosto é Full Moon Rise, Chausey Islands, França, 2007. Uma exposição de diversas horas pra pegar o movimento da lua nascendo, do mar até o canto superior direito da foto. Uma obra-prima, na minha singela opinião de estudante.

A foto aqui de cima é uma homenagem ao mestre, com carinho. Tive que fazer o contrário e o resultado ficou bem diferente, claro. Ao invés de uma 8'10" com um negativo pb sendo exposto durante horas, fiz com uma digital, na mão, apenas alguns segundos. Sem falar que a lua não estava cheia mas tudo bem. Foi a terceira tentativa, fiz mais nove depois mas nenhuma superou a simplicidade dessa. Estava em Balneário Camboriú, SC, sexta passada, fazendo um trabalho durante a tarde, e nessa hora tava sozinho na sacada, depois de todos terem ido dormir, pensando, vendo o mar do outro lado da rua e fotografando. Já tinha guardado tudo quando a lua saiu de trás das nuvens. Hesitei por preguiça mas como talento não existe, tive o trabalho de montar tudo de novo, tentar com o tripé, tirar, tentar, ter todo trabalho pra chegar nesse resultado. Sem falar em conhecer o trabalho do Michael Kenna. Pensar e agir, não nascemos prontos e estamos em constante desenvolvimento. Nosso trabalho também: Kenna produziu a Full Moon aos 54 anos de idade.

Post Script: De maneira nenhuma quero me comparar com esses caras, me colocar no mesmo patamar. Um amigo meu teve essa leitura, e me parece que talvez eu tenha me expressado mal. Quis dizer que todos nós estamos em desenvolvimento sim, apesar dos resultados terem relação direta com nossos limites e situações individuais. Usei o exemplo dos mestres pra clarear a visão de um aprendiz como eu, no sentido que nada acontece do dia pra noite e nenhum dos caras que admiro simplesmente virou alguma coisa só porque nasceu pra fazer aquilo. Não, todos são mestres no sentido de desenvolver uma habilidade em um nível extremo, mas isso só aconteceu por causa do trabalho e dedicação.
Michael Kenna tem 56 anos e esse ano de 2009 já trabalhou muito e vai trabalhar muito mais:

EXHIBITIONS

2009
January 5 - 30. Michael Kenna-Saturo Hoshino, Staniar Gallery, Washington & Lee University, Lexington, Virginia, USA
January 31 - May 25. 9th NW Biennial, Tacoma Art Museum, Tacoma, Washington, USA ( group)
February 10 - March. Zeit Gallery, Tokyo, Japan
May 25 - June 27. Centro Andaluz de al Fotografia, Almeria, Spain
May 9 - August 1. Picturing Eden, Ringling Museum of Art, Sarasota, Florida, USA (group)
August 28 - November 11. Michael Kenna - Retrospective, Kushiro Art Museum, Kushiro, Hokkaido, Japan
October 12 - January, 2010. Michael Kenna - Retrospective, Bibliotheque Nationale, Paris, France
October. Camera Obscura Gallery, Paris, France
October. Box Gallery, Brussels, Belgium
December 12- March, 2010. Michael Kenna - Retrospective, Palazzo Magnani Museum, Reggio Emilia, Italy

PUBLICATIONS

2009
January. 2009 Wall Calendar, Nazraeli Press, USA. (13 photographs)
April. Heiden Hotel, Nazraeli Press, USA. One Picture Book. (14 photographs)
October. Michael Kenna Retrospective, Bibliotheque Nationale, France. (150 photographs)
November. Love in black and white, Nazraeli Press, USA. (45 photographs. 45 poems by Bianca Rossini )